IRMÃO K - 17 de março de 2012 - Autres Dimensions

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- Ensinamentos de Jiddu Krishnamurti -




~ DESCOBRIR O QUE SOMOS ~
Eu sou o IRMÃO K.
Irmãos e Irmãs, permitam-me transmitir-lhes as minhas homenagens pela sua Presença.
Foi-me pedido, hoje, pela Assembleia dos Anciãos, com as minhas palavras, para dar-lhes uma série de elementos que podem permitir-lhes, seguindo-os, talvez, seguirem-se vocês mesmos, a fim de descobrir o que vocês São.

*** 

Eu tive a oportunidade de falar sobre a Liberdade, sobre a Autonomia, sobre o conhecido e o Desconhecido.
Na minha última vida encarnada, sobre esta Terra, eu vivenciei, muito jovem, um choque.
O choque que chega a abalar as próprias estruturas da vida em meio à pessoa e (frequentemente quando se trata de uma perda) uma perda vivenciada, é claro, como um drama.
Muitas vezes, nessas condições, há como uma sideração da própria vida: uma parada, um assombro.
Uma dor indizível que, repentinamente, de um único golpe, vai mudar o que eu denominaria a relação com o mundo, a relação com a vida e, de qualquer forma, o relacionamento com a vida.
Nos dias, nas semanas e nos meses que se seguiram ao choque que eu vivenciei (e que é pessoal), ao meditar sobre o próprio sentido desse choque, do seu significado e da sua relação com a minha própria vida, de um golpe, de um única vez, o local onde eu estava (que eu olhava como uma forma de devaneio), esta paisagem, esta natureza maravilhosa que eu observava, subitamente, transformou-se.
Ela se tornou Vivente, como animada de um sopro outro do que se deixava ver pelos meus olhos.
Tudo se animou, tudo se tornou (e eu não tenho palavra melhor) Vivente.
No momento anterior, o que eu achava bonito e majestoso foi, então, considerado como morto.
E, no entanto, eu tive que me render à evidência: o que eu observava estava sempre aí, mas possuía qualidades diferentes.
Minha introspecção, minha meditação de então, fez-me transportar, prioritariamente, não tanto no sentido da experiência, que é incomunicável, nem mesmo exprimível em palavras ou por qualquer arte que seja.
Esta experiência, que eu qualifiquei, em seguida, de indizível, não podia ser comunicada de qualquer forma.
Pois, o que se conhece, durante toda a vida (por exemplo, a maneira que vocês comem), vocês podem expressá-lo, mas ninguém pode comer no seu lugar, ninguém pode ver através dos seus olhos.
Entretanto, todo mundo vê e todo mundo come.
E mesmo se as circunstâncias desses atos podem tomar uma cor diferente para cada ser, trata-se, fundamentalmente, dos mesmos atos, das mesmas funções, para todo ser humano.
Mas aí, nisso que ocorreu, nisso que aconteceu, existia um elemento estritamente desconhecido, que me fez sair, de algum modo, do conhecido.
E, no entanto, enquanto vivendo isso, pela qualidade de introspecção que era minha, eu compreendi, de imediato, que, nunca, eu poderia compartilhar esta experiência transcendente.
Que, nunca, eu poderia, com palavras, compartilhar o que eu tinha vivenciado.

*** 

Então, eu percebi que a única coisa que era possível, naquele momento (graças a esta faculdade de introspecção), era descrever, de alguma forma, os meios que iam permitir ver além do que era visto, além do Véu, ir do que é conhecido a este Desconhecido.
E que porque isso era a consequência (para mim, como para todo ser que vive isso) de viver a Liberdade, a Autonomia e o que eu denominei, recentemente, a Responsabilidade.
Inicialmente, o que eu tinha vivenciado era completamente independente de qualquer referência a um passado, de qualquer referência à minha própria vivência anterior, de qualquer referência a uma mínima projeção, seja qual fosse, a um mínimo desejo.
No instante anterior, isso não estava aí.
No instante seguinte, isso estava aí.
E este instante seguinte radicalmente transformou o que eu era.
Houve, efetivamente, um antes e um depois.
Da mesma maneira que o trauma da perda enorme que eu vivenciei estava inscrito como um antes e um depois.
Um antes em que eu nada tinha perdido.
E um depois em que tinha o sentimento profundo da perda, do sofrimento, do luto.
Aí, do mesmo modo, saindo desse conhecido habitual, foi-me deixado viver (sem procurá-lo, é claro) algo que nada mais tinha a ver com o campo de experiências habitual do ser humano, tanto no ordinário, como no espiritual.
O que foi mais notável é que, naquele momento, a minha relação com o mundo, a minha relação com os outros, foi irremediável e radicalmente transformada.
Tudo o que eu percebia, tudo o que eu vivia tinha uma tonalidade, uma cor, uma impregnação que não correspondia absolutamente a nada do que os sentidos podiam proporcionar, do que o intelecto podia proporcionar, ou do que as próprias emoções podiam proporcionar.

***
 

Eu estava, então, frente ao que eu denomino, ainda hoje, este Desconhecido que, é claro, tornou-se a minha natureza, como ela está prestes a se tornar a de vocês.
Mas em toda a minha vida, por este choque inicial, eu compreendi e me apreendi e tentei transmitir, da melhor forma que eu podia, que este Indizível, que este Desconhecido, apenas podiam se manifestar e existir (enquanto estando sempre aí) a partir do momento em que o conhecido tivesse desaparecido na totalidade.
Apreendam-se bem de que não era questão de negar alguma coisa, mas, sim, de viver algo diferente, sem buscá-lo, e eu analisei, então, as circunstâncias da inteligência da relação e eu tentei levar (na maioria das minhas entrevistas) a Consciência dos meus Irmãos e Irmãs no que podia representar, de algum modo, obstáculos na manifestação do que estava aí, de toda a Eternidade, de todo o tempo, mas que, simplesmente, mecanismos específicos, inscritos em meio à pessoa, impediam, literalmente, de ser vivenciado.
Eu me apreendi de que toda relação devia ser livre e de que toda relação que estava inscrita em uma dominação, em um poder, em uma organização (mesmo a mais lógica: social, espiritual, familiar), jamais permitia viver isso.
De que enquanto existisse a persistência de um conhecido, enquanto a pessoa mantivesse esse conhecido (mesmo em seus aspectos mais agradáveis, mais atraentes, mais amorosos, digamos), este Absoluto não podia penetrar ou não podia, de algum modo, deixar-se penetrar por este Desconhecido.
Eu me apreendi, também, de que a relação não tinha que ser rompida, que ser negada, que ser recusada, mas, sim, realmente (e não há palavra melhor), que ser transcendida.
Enquanto vocês estiverem fechados em uma relação, seja qual for, mesmo a mais bela, vocês não podem descobrir o Desconhecido.
Porque a relação, por essência, é sempre fundamentada em uma necessidade de confiança, em uma necessidade de amor, em uma necessidade de certezas.
Mas todas essas relações não são Livres.
Elas dão a impressão da liberdade, do substituto da liberdade, do substituto do amor, mas elas jamais irão lhes permitir (em sua realização mais total, até mesmo) viver o Desconhecido e viver a Liberdade.
Não há então, fundamentalmente, relação livre.
A única relação verdadeira é aquela que se estabelece muito além da pessoa, muito além da alma, muito além do Espírito, muito além de todo discurso podendo fazê-los crer na existência de relações entre almas, entre Espíritos, entre as Dimensões, ou entre vocês e seja com quem for.
Eu cheguei, naquele momento, a desfazer a minha afiliação de qualquer organização.
Porque, a partir daquele instante, eu me apreendi de que nenhum movimento, nenhuma organização, nenhum grupo podia realizar isso, pois o conjunto disso não podia se inscrever em nada de conhecido, em nada organizado, em nada estruturado ou sistematizado.

*** 

O Desconhecido não pode se acomodar a nada de conhecido.
Enquanto houver o conhecido, há persistência, em meio a este mundo, desta pessoa, seja qual for a sensação, sejam quais forem as experiências, seja qual for ainda o lado agradável ou bonito.
O conhecido jamais conduz ao Desconhecido.
Então, é justamente algo que é preciso desfazer-se e é preciso se desfazer, agora, de qualquer relação.
Apreendam-se bem de que eu não peço, por aí, nem os aconselho, de forma alguma, a romper ou a anular qualquer relação, mas, bem mais, a transcendê-la, além de todo sentido de organização, além de todo sentido de propriedade ou de apropriação.
A Liberdade, a Autonomia, a Responsabilidade, o Si, apenas pode estabelecer-se a partir do momento em que vocês tiverem interrompido, nos próprios mecanismos do seu pensamento, todos os apegos, a qualquer religião, a qualquer pessoa, a qualquer identidade.
Vocês não podem pretender ser Livre sem se Liberar realmente.
Vocês não podem se encontrar para estar no Desconhecido, estando no conhecido, seja ele qual for.
Sejam quais forem os nomes que possam dar diferentes correntes tradicionais e iniciáticas, mesmo em sua justeza de palavras, em nada poderá permitir-lhes viver o Desconhecido, enquanto vocês estiverem no conhecido.
Porque, por definição, sobre este mundo, tudo o que é conhecido de vocês pertence, necessariamente, a uma reprodução, a um efêmero, a algo que pertence a uma convenção, seja ela qual for.
Convenção que está inscrita, necessariamente, na dependência afetiva, social, familiar e que, jamais, irá permitir-lhes viver a Independência.
Os poetas têm dito: “seus filhos não são seus filhos”.
Essa é a estrita verdade.
Enquanto existir, em vocês, um sentido de propriedade, um sentido de apego, seja a quem for, a algum conceito, vocês não podem pretender o Desconhecido, a Liberdade e, ainda menos, a Liberação.
Apreendam-se bem (e aí está todo o paradoxo ou, se pudermos dizê-lo, a aparente dificuldade) de que não há, portanto, nada para rejeitar, nada para romper, exceto em vocês mesmos, no nível do que vocês concebem, do que vocês creem, de tudo o que foi experimentado.
Nenhum Desconhecido pode se revelar enquanto vocês estiverem instalados no conhecido.
Nenhuma Liberdade pode aparecer enquanto vocês mesmos não estiverem Livre.
Ora, a experiência que eu vivenciei, este acesso ao que era Vivente, é a Liberdade.
Porque isso É, de toda a Eternidade, independentemente de qualquer circunstância, independentemente de qualquer olhar, independentemente de qualquer pessoa.

*** 

Eu fui convidado, então, a expressar-me longamente (sob forma de imagens, às vezes), tentando dizer e exprimir que jamais algum ser humano poderia fazê-los viver este Conhecido (pois isso é uma abordagem pessoal, além da pessoa), que não podia existir qualquer salvador exterior, que não podia existir qualquer opinião exterior a vocês mesmo e que, a partir do momento em que uma relação se estabelece (no conhecido, de casal, de mestre a discípulo), não pode ali haver Liberdade.
Eu então afirmei, e eu reafirmo, hoje, que não há qualquer guru, qualquer mestre, qualquer ser que possa conduzi-los à Liberdade e à Liberação.
Há apenas ressonâncias (em meio a uma relação mais livre possível) que podem levá-los a reconsiderar o que vocês chamam de liberdade, de liberação, o que vocês chamam de conhecido.
Vocês podem, como diriam outros Anciãos, eliminar (sem rejeitar) da sua cabeça, tudo o que for conhecido.
O Desconhecido não pode ali se encontrar.
Não há, portanto, solução de continuidade, e todo engano da pessoa está aqui: é crer que a Luz, impactando-se nas Estrelas, nas Coroas, vai preenchê-los e vai transformar alguma coisa em vocês.
É impossível.
Isso foi uma etapa.
Mas viver a Liberdade e a Liberação é abandonar muito mais do que a pessoa.
É abandonar até mesmo a Luz que é vivenciada como exterior.

*** 

Ser Luz não é se preencher de Luz.
Ser Livre não é evocar a Liberdade.
É já apreender-se do que ela não é.
Do mesmo modo, o Absoluto não pode ser compreendido.
Ele apenas pode ser aproximado através do que ele não é.
Assim como houve durante o meu choque (que é também o choque de cada um) um antes e um depois, há, efetivamente, uma Passagem.
Essa Passagem não pode ser decidida em meio ao conhecido.
Ela necessita, além do Abandono à Luz, de um Abandono do Si e da pessoa, na totalidade.
O que não é, no entanto, um suicídio ou o fato de negar alguma coisa, mas, sim, estar em uma lucidez nova, aceitar que não pode haver qualquer autoridade, qualquer ser, qualquer guru, qualquer deus, qualquer circunstância, que possa levá-los ao que vocês São.
Mais uma vez, é apenas afastando da sua consciência tudo o que é consciente, todas as experiências que, em última análise, vocês irão superar até mesmo a consciência do Si.
Resultando no que nós poderíamos denominar, de diferentes modos, o Todo, o Absoluto, “Eu e o Pai somos UM”, ou, ainda, o Brahman e o Parabrahman ou, se vocês preferirem, o fim do conhecido.

*** 

Haverá sempre, em meio a qualquer relação, uma salvaguarda.
Esta salvaguarda sempre é inscrita em relação a uma norma, a uma regra.
Eu afirmo, como eu afirmava durante a minha vida, que nenhuma regra, nenhuma forma, nenhum limite pode ser mantido no Ilimitado.
Nenhuma definição, nenhum conceito e nenhuma percepção sequer (habitual, sensorial) pode definir o que não se enquadra em qualquer definição.
E, no entanto, é daí que se tem a Verdade, a Eternidade e que se tem, exclusivamente, o que vocês São, o que nós Somos.
A Liberdade inscreve-se em uma relação totalmente nova, desvencilhada, é claro, de qualquer apego, de qualquer papel, de qualquer função até mesmo, e, sobretudo, de qualquer vontade inerente à pessoa.
Não há pior obstáculo a esta Liberdade do que a ‘vontade de bem’, do que a vontade de organizar, de estruturar esta experiência.
Não há pior obstáculo ao Desconhecido do que o conhecido.
Não há maior resistência do que o que vocês creem ser em meio ao seu conhecido: pessoa, vida, experiência, história pessoal, lenda pessoal.
Tudo o que vocês mantêm, mantém-nos, de maneira inexorável e definitiva.
É preciso então aceitar, como dizia o nosso Comandante (ndr: O.M. AÏVANHOV), desprender-se, nada mais ter, encarar o nada do conhecido para viver o pleno.
Vocês não podem ser preenchidos por qualquer consciência do que deve preenchê-los, ou ser o que vocês São.

*** 

A postura da relação (seja qual for esta relação) deve ser concebida como uma postura de Liberdade e de Liberação total.
O Amor é esta Liberdade.
O Amor é esta Liberação.
Ela não está em uma projeção de algo no exterior do ser, mesmo que isso seja atraente, mesmo que isso seja tranquilizador, mesmo que isso possa parecer satisfazê-los.
Reflitam: por que, mesmo em meio a uma relação usual de casal, haveria necessidade de recomeçar algo que iria satisfazê-los permanentemente (seja olhar-se, fazer amor)?
Seja qual for o ato que vocês empreenderem, com um outro ou uma outra, há necessariamente uma reprodução, pois há necessidade, efetivamente, de preencher isto que está vazio em vocês.
Ora, vocês preenchem com algo que jamais irá preenchê-los.
Qualquer relação do conhecido, qualquer relação com um outro ser, jamais poderá preenchê-los, de maneira alguma, por que vocês já estão preenchidos.
Aí está o que poderia parecer como funesto ou triste.
Como o que está (por exemplo, na paisagem que me foi revelada) poderia não estar ali, no instante anterior?
O que mudou foi a minha visão, além de toda percepção e da própria visão ocular.
Passar do conhecido ao Desconhecido não pode acontecer enquanto vocês mantiverem alguma coisa do conhecido.
Como diziam alguns ensinamentos no passado: “se tu encontrares Buda, mata-o”.
O mestre serve apenas para isso: para ser morto.
Toda relação é fadada ao fracasso enquanto vocês permanecerem no conhecido, mesmo que ela satisfaça o conjunto da sua vida.
O que vai restar, no momento da partida?
O que me restou quando eu perdi, jovem, o que eu tinha de mais caro aos meus olhos: o nada, a aniquilação.
E é em meio a esta aniquilação que nasceu (enfim, eu acreditei nisso) o que estava aí, de toda a Eternidade.
Eu, então, de algum modo, transcendi o conhecido, atônito diante do Desconhecido desta morte que me havia tomado o que eu tinha de mais caro, para descobrir que, de fato, nenhuma relação, em meio ao conhecido, podia satisfazer coisa alguma.

*** 

Foi, então, naquele momento, minha responsabilidade, como isso é hoje, atrair sua atenção, sua consciência, de que nada do que lhes é consciente, nenhuma relação presente com um outro, ou mesmo no interior de vocês, nas diferentes partes da pessoa, nenhuma lógica, nenhum contexto de referências, nenhuma ação, pode levá-los ao Desconhecido.
A Ação da Graça, esse Casamento Místico apenas se realiza, em última análise, com nada mais do que o que poderíamos nomear ‘você mesmo’, em outro nível (o duplo, se vocês preferirem).
É o momento em que o complexo que foi nomeado, eu creio, inferior (o corpo físico e seus envelopes sutis), casa-se com o complexo, se pudermos nomeá-lo assim, além do conhecido, no Desconhecido, além mesmo do corpo de Estado de Ser, além mesmo do Si.
Naturalmente, muitos seres humanos vivem hoje o acesso, eu o denominaria assim, ao Si: a realização do Si.
De maneira totalmente inesperada, de maneira totalmente feliz ou, aí também, por vezes, depois de um sofrimento.
Mas mesmo esse Si, seja qual for a leveza que ele proporcionar, não é a Verdade.
A única Verdade é aquela que vocês não podem imaginar, conceber, perceber e nem mesmo sentir.
O Absoluto está além de toda percepção e de toda sensação e, sobretudo, além de toda projeção, de toda relação, porque todas as relações deixam de ser apego.
O Casamento Místico, como eu o vivenciei olhando essa paisagem, vai muito além da simples comunhão do que é vivenciado, mas os faz perceber a ausência total de distância entre o que vocês acreditavam ser anteriormente (uma pessoa) e a própria paisagem.

*** 

Eu dizia, durante a minha vida, àquele que me perguntava sobre esta outra margem, que eu não podia fazê-lo atravessar.
Somente ele é que podia constatar, por ele mesmo, o que era esta outra margem.
É o mesmo, hoje.
Nenhuma afirmação, nenhuma experiência em meio ao conhecido (mesmo através de um caminho Vibratório, energético, que vocês vivenciaram, ou não), pode levá-los a esta outra margem.
Porque existe, em meio ao que é chamado de vida sobre este mundo, em meio à pessoa, seja qual for, um princípio que sequer é questão de discutir a existência, que eu denominaria princípio de sobrevivência.
Este princípio de sobrevivência inscreve uma forma de perenidade ilusória neste corpo.
Se a mão é colocada sobre alguma coisa que está quente, independentemente da sua decisão, a mão se retira para evitar a queimadura.
 Esses mecanismos de sobrevivência são perfeitamente conhecidos.
Eles não são, então, o Desconhecido e eles absolutamente não conduzem ao Desconhecido já que são, ainda, a salvaguarda impedindo-os, de maneira muito lógica, de aceder e de Ser este Desconhecido.
A relação correta é uma relação que se torna impessoal e que o é, por que no Si, como no Absoluto, não há mais limite, não há mais papel, não há mais função, não há mais organização.
O outro não é visto como uma outra forma, mas, sim, como parte integrante, além de toda visão deste Desconhecido que nós Somos.
Em todos os tempos, os seres renunciaram a este mundo, esperando encontrar o outro mundo.
Muito poucos ali chegaram.
Porque, renunciar ao mundo, é renunciar à vida.
Ora, vocês não podem renunciar à vida, mesmo em seus apegos, negando-a.
Vocês apenas podem transcendê-la, transcendendo, justamente, o que eu chamei de relação.

*** 

A Liberdade e a Verdade são um país ou um território sem qualquer caminho.
Obviamente, a pessoa que vocês são, que vocês creem ser, vai fazê-los crer, permanentemente, na existência de um caminho, comum, através dos seus filhos, do ser amado, através de um amigo.
Ora, não existe qualquer caminho para o Absoluto.
Ele está aí, de toda a Eternidade.
 Como o que está aí, de toda a Eternidade, poderia ser buscado ou encontrado, já que ele já está aí?
Quando nós dizemos que vocês São a Eternidade, que vocês São a Graça, que vocês São a Dádiva da Graça, isso não é uma afirmação gratuita ou uma autossugestão, que, aliás, de nada serve, pois aqueles que não vivem isso apenas podem vociferar sua contrariedade e seu ódio frente a isso.
Assim é o ego, mesmo repleto de Luz.
Vocês devem, se tal for o seu desejo, liberar-se totalmente de tudo o que é conhecido, conceber que não há caminho, em última análise, para aperceber-se de que não há território, de que não há país, de que não há pessoa e de não há mundo.
Sem, no entanto, que isso seja uma rejeição de alguma coisa.

*** 

O Desconhecido nada tem a ver com o conhecido, mas ele o integra.
O Ilimitado nada tem a ver com o limitado e, no entanto, o limitado apenas pode estar contido no Ilimitado.
Vocês estão exatamente na mesma situação.
Vocês estão exatamente na mesma suposição e são apenas vocês que podem realizá-lo, aceitando que estritamente nada há para realizar.
Isso não é um paradoxo, nem uma oposição, ainda menos um antagonismo.
A única relação correta não pode ser estabelecida com uma das partes do Todo, mas, sim, com o Todo.
Ora, qualquer relação com o Todo, com o Absoluto, com o Brahman, é apenas a realização incondicional deste estado, além de todo estado, do que está muito além até mesmo da Consciência.
A Consciência, em última análise (seja qual for: limitada ou do Si), será apenas, sempre, a expressão de uma simples separação, mais ou menos pronunciada.
Vocês não podem estar separados, de forma alguma, do que vocês São.
Vocês não podem limitar o que é ilimitado.
Nenhuma experiência irá ali conduzi-los.
Não há, aliás, qualquer caminho e como eu disse, qualquer território e qualquer país.

*** 

Se, contudo, a pessoa que vocês são, se, contudo, o Si que vocês são, não puder aceitar, nem mesmo considerar o que eu digo, então, não importa, porque, aí também, nada há para projetar em um desejo de ser isso, pois vocês o São, de toda a Eternidade.
Nada há, então, para desejar, assim como nada há para projetar, assim como nada há para ser.
Há apenas que se estabelecer, de algum modo, no que já está estabelecido.
Nenhuma vida, nenhum conhecido, poderia ainda ser considerado sem ser sustentado, contido, pelo Amor, pelo Desconhecido.
Muitas vezes o ser humano fala do Amor.
Ele mesmo criou religiões, em nome do Amor, cujos atos têm sido a antítese do Amor.
Todo mundo conhece as relações amorosas, filiais, maternais, mesmo as mais ideais, que sempre terminam tragicamente.
Por quê?
Porque a morte, inelutável, faz desaparecer toda a ligação.
Então, é claro, a alma que reencarna em outra pessoa vai, por desespero ou por amor projetado, manter essas ligações, essas relações, sob outros papéis, sob outras funções, sob outras perspectivas, mas isso não é a Liberdade e jamais irá conduzir à Liberação.
Portanto, mesmo o karma, o livre arbítrio, é uma heresia, uma criação pura da limitação, do confinamento.
O que vocês São nada conhece de tudo isso, o que vocês São está além de tudo isso.
Não basta conscientizá-lo, por que isso não pode ser conscientizado, nem realizado, por que, justamente, isso sempre esteve aí.
Aí onde se colocam, disseram alguns Anciãos, sua Intenção e sua Atenção, realiza-se a Consciência do que vocês são ou do que vocês creem ser.

*** 

No que se refere ao que foi denominado a Onda da Vida e que eu prefiro chamar de Dádiva da Graça, não há estritamente nada para fazer.
Não há nada para desejar.
Não há, tampouco, nada para esperar.
Há justamente que deixar Ser o que É, de toda a Eternidade, sem qualquer intervenção da pessoa, sem qualquer intervenção da emoção, do mental, do julgamento ou de qualquer espiritualidade.
A relação (quando ela é apreendida além de tudo o que pode ser conhecido) irá liberá-los, pois, em última análise, a única relação que pode permanecer e que é Verdade, está muito além da relação, tal como é compreendida.
Ela é Comunhão, Fusão, Dissolução.
Ela é este Êxtase ou esta Íntase muito particular, além do Samadhi, onde a própria identidade (se ferozmente mantida na Ilusão) desaparece.
E no desaparecimento da Ilusão da identidade, há estabelecimento no Absoluto, onde, efetivamente (e concretamente, não por projeção, por desejo ou suposição) tudo é UM, por que na mesma Graça, na mesma Onda, na mesma Liberdade.
Apreendam-se bem, também, de que vocês não podem eliminar qualquer relação existente sobre este mundo, mas mudar o olhar, servir-se da Inteligência para compreender que tudo está indissoluvelmente conectado.
Mas não conectado em uma relação de posse ou de amor, seja ela qual for, mas, sim, como a própria expressão da Natureza do Amor.

*** 

Aí está ao que a Terra se desperta e se revela.
Aí está ao que a Dádiva da Graça convida vocês: a Casar-se.
Mas não ao casamento com esse corpo ou com um outro corpo ou com uma outra alma ou com um outro Espírito.
Este Casamento com o Absoluto restitui vocês ao Absoluto.
Restitui vocês à única Verdade: aquela que não está inscrita no tempo e no espaço, aquela que não está inscrita em um caminho ou em um país ou em um território e, ainda menos, em qualquer organização, seja ela qual for.
Enquanto vocês pensarem que devem pertencer a alguém, a um grupo social, a um grupo humano, vocês não são Livres.
Ser humano é, justamente, escapar, sem renegar, a todo condicionamento, a toda percepção, a toda concepção, refutar tudo o que é conhecido.
Não há outro caminho.
Não há outra possibilidade, doravante, se não Ser o que vocês São, aí onde vocês estão.
Esta Dádiva da Graça representa o momento final em que, como dizia A FONTE, o Juramento e a Promessa são revelados.
Eles sempre existiram.
Aí onde vocês se têm é o que vocês são.

*** 

Agora, olhem, com inteligência, quais são as suas relações.
Toda sutileza está aí.
As religiões os confinaram em um ser exterior que podia salvá-los, ao passo que esses Grandes Seres (e houve vários, mesmo os maiores deles) apenas lhes disseram, em última análise, uma coisa (evidentemente transformada pelo próprio princípio da organização, seja ela qual for): que a sua essência era o Amor, que vocês não eram deste mundo, mas que estavam sobre este mundo.
Não há ninguém para seguir.
Há apenas, eventualmente, que imitar esses Grandes Seres, não por imitação, mas por ressonância, de algum modo.
Todos esses Seres nunca expressaram mais nada, enquanto que as organizações, as religiões organizaram a verdade final para própria conveniência, a fim de manter relações de dependência, de confinamento.
A sociedade fez exatamente a mesma coisa, seja através de técnicas, através de regras e mesmo através de uma relação que, paradoxalmente, chama-se de amorosa.
O Amor não pode ser uma projeção de alguma coisa, para com qualquer coisa, já que o Amor é a própria Natureza do átomo, dos mundos, de todas as Dimensões, além de toda apropriação, além de toda suposição.

*** 

Hoje, a Dádiva da Graça chama vocês, se bem que a palavra não seja exata.
Mas o conjunto das circunstâncias da Terra os chama.
O Som do Céu, o Som da Terra, os vulcões, apenas refletem o que acontece em vocês.
O apelo percebido, no Céu como na Terra, é o apelo da Dádiva da Graça, em vocês.
É apenas o olhar projetado que vê um mundo.
As lutas que vocês observam sobre este mundo são apenas as suas próprias lutas.
Tudo o que vocês rejeitassem deste mundo apenas representaria, em última análise, o que vocês rejeitam em vocês mesmos.
A Dádiva da Graça é um apelo à Liberdade e à Autonomia, à sua Responsabilidade.
A Dádiva da Graça é, efetivamente, um deleite permanente.
Este deleite nada tem a ver com o deleite limitado, por que este é um deleite Ilimitado.
O deleite limitado pertence ao contexto amoroso ou afetivo.
Ele é obrigado, como eu disse, a repetir-se sem cessar para dar a impressão de se manter em uma permanência: sejam as carícias prodigiosas, um olhar dado, um beijo dado, a educação de um filho, tudo isso, e vocês sabem que para vivê-lo, tudo deve ser reproduzido, sem parar, a cada dia, a cada instante.
No início, é claro, com facilidade e evidência, e por vezes até o fim, até mesmo, na própria evidência.
Mas isso é apenas a reprodução, isso é apenas a ilusão do amor.

*** 

O verdadeiro Amor, aquele que os faz considerar todos os seus Irmãos como parte integrante de vocês mesmos, pois esta é a estrita Verdade, que apenas pode se revelar (embora sempre estivesse aí) a partir do momento em que vocês aceitarem ir além da pessoa.
Eu não falo, portanto, de qualquer narcisismo visando amar a pessoa, mas, sim, de amar o que vocês São, além de toda a pessoa e, então, de todo o papel: é estar na relação real com a Verdade e vocês nada mais são do que a Verdade.
Vocês não são o que vocês projetam.
Vocês jamais serão o que vocês acreditam idealmente sustentar-se em uma permanência, mas vocês são, realmente, esta permanência.
Não há, portanto, nada pata buscar no exterior, por que não há exterior.

*** 

Hoje, a Dádiva da Graça vai levá-los, ou não, a viver (porque essa é a sua Natureza) a Doação e a Graça.
Não a doação de um amor, não a doação de si, somente, mas muito mais: além de toda a consciência, viver a natureza essencial e primordial do que vocês São.
Só o jogo da distância, da separação, do distanciamento, da pessoa, nos fez crer, a todos nós, que nós podemos perder alguma coisa.
E é esta mesma experiência que, muitas vezes, conduz à Eternidade.
Pois a dor da separação é tal, é tão intensa e indizível, que ela apenas pode resultar no Absoluto, rendendo Graças, de algum modo, à própria Graça, pondo fim, então, a toda Ilusão.
Naquele momento, vocês São o Amor.
O mesmo Amor nesta pessoa que vocês não são mais, no átomo, no Sol, no ser dito amado, como no ser chamado de inimigo.
Todas essas denominações não têm mais sentido, pois não há, estritamente, mais nada a chamar que já não esteja presente no Absoluto.
Hoje, sobre este mundo, tudo isso está, eu diria, cada vez mais acessível e cada vez mais evidente.
Em outras palavras, não há outro Apocalipse senão este: enquanto a pessoa considerar, de uma maneira ou de outra, um fim, ela se reconhece, então, finita, ela se reconhece, então, efêmera.
Aquele que vive esta relação final saiu definitivamente dos jogos de papéis, dos jogos de posse, dos jogos de atribuição de papéis ou de poderes.
Pois não há outro poder senão o poder da Vida, que é Dádiva da Graça.
Onda da Vida.
Onda do Éter.
Onda da Eternidade.
Não há outro Casamento senão aquele da sua Liberdade.
Não há caminho.
Não há território.
Não há limite.

*** 

Se a pessoa que vocês são não puder aceitar (eu bem digo não aceitar e não compreender, pois o que eu digo está inscrito além de qualquer compreensão, eu chamei isso de algo que vocês podem apreender na sua essência e não através dessas palavras), então, eu lhes diria, simplesmente, que isso É, de toda a Eternidade, e não tem o que fazer da sua opinião, não tem o que fazer da sua posição, não tem o que fazer da sua adesão ou da sua negação.
Pois tudo isso não pode alterar, de forma alguma, o Absoluto.
Caso contrário, como ele seria o Absoluto e como ele seria o Último?
Aí está, através da minha experiência de vida, e através do que eu poderia ser tentado a chamar do que eu represento hoje, o que eu podia dizer-lhes.
Eu penso que o tempo que me foi atribuído chega ao final.
Se nós tivermos tempo e se houver alguma interrogação referente, exclusivamente, ao que eu acabo de enunciar, então, eu irei escutá-los.

*** 

Nós não temos mais perguntas. Nós lhe agradecemos.

*** 

Eu proponho um instante a vocês.
Este instante não é dedicado ao acolhimento da Luz, nem mesmo da Onda da Vida, mas se dedica, simplesmente, a estarem atentos.
Um momento de meditação, sem objeto, sem suporte, sem pedido.
Apenas isso.
Essa é a minha maneira de render Graças à sua Presença, a minha maneira de saudá-los e de dizer-lhes até breve.
Eu lhes direi quando isso cessar.
Agora.

... Compartilhamento da Dádiva da Graça ...

Até breve.



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Mensagem do Venerável IRMÃO K no site francês:
17 de março de 2012
(Publicado em 18 de março de 2012)

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Tradução para o português: Zulma Peixinho


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